Santos, Anabela

Magic moment. To meet Anabela Santos, who now lives in Brighton, in the street where I live. Just passing through, the day she decided to visit the city where she has studied. For more on her extremely sensitive work, in two moments we crossed paths, check out the projects TERROIR/GRAFFITI and ESQUECER SARAMAGO. And look out what I read in her Facebook page: Those who receive your art will recognise their own feelings through you. Your creativity creates  heart-to-heart connection of truth and authenticity. This opens up the hearts of everyone who resonates with your art, leaving a wake of healing. Talk soon, Anabela.

IMG_8400

Momento mágico. Encontrar a Anabela Santos, que agora vive em Brighton, na rua onde vivo! A passar casualmente, no único destes dias em que deu um pulo até à cidade onde estudou. Para mais sobre o trabalho extremamente sensível desta, em dois momentos em que nos cruzámos, espreitar precisamente os projectos TERROIR/GRAFFITI e ESQUECER SARAMAGO. E vejam lá o que se lê na sua página de Facebook: Those who receive your art will recognise their own feelings through you. Your creativity creates  heart-to-heart connection of truth and authenticity. This opens up the hearts of everyone who resonates with your art, leaving a wake of healing. Arrisco agora em Português: Aqueles que recebem a tua arte reconhecerão através dela os seus próprios sentimentos. A tua criatividade cria conexão de verdade e autenticidade, de coração para coração. Isto abre os corações de quem quer que entre em ressonância com a tua arte, gerando um despertar da cura. Até já Anabela.

 

 

 

 

Total Urban Mobilisation! Now!

Reading (and wildly annotating!) Krzysztof Nawratek’s latest book – Total Urban Mobilisation: Ernst Jünger and the Post-Capitalist City –, an exhilarating read in mere 98 pages. The place: the warmhearted harbour for searching minds which is Karuna, the retreat center in the never-ending hills of Monchique, where the pressing desire for a post-capitalist urban life would apparently seem out of place.

In the homecoming process of merging with the self, my conviction is nevertheless that any method is welcome, and any path shall be open to fascinating detours – including the literally religious effort of interiorizing such a densely woven (there you go, post-secular) socio-cultural horizon, written with the boldness of a spiritual anarchist.

Themes such as social co-existence, citizen agency, urban creativity, tactical urbanism or experimental prototyping – to name just a few – are firmly, but also delicately interconnected by means of Ernst Jünger’s stereoscopic wanderings, in a tribute to truths capitalism and the neoliberal Dark Enlightenment gurus insist to ignore. Not that I suffer with the current monstrous misleading of lives and nature, for compassion and awareness is in any case more powerful than ignorance and negation.

But anyway, between a fresh take on case studies emerging all around the globe and sharply provocative philosophical positions articulated with utmost concision, the text is a discursive experiment on the foundations of common life on Earth and at the same time an enjoyable and almost dramaturgic sequence of landscapes for insightful thought to engage with the Self right within the urban condition. In such meta-narrative, places like Karuna are certainly gateways – portals – to the silent city where all ideas come to rest and become the sediment for Good.

This little book establishes a bridge with the heavier (considering the number of pages) and more poetic and literary Foams by Peter Sloterdijk. Which is relevant, since we’re all in need of alternatives for exhausted ideologies and soulless urban practices. Total urban mobilisation is just the right notion where to start. Just take some time for the search to take you to the brave new horizon of the post-capitalist city, by the hand of one of the most post-critical theorists of today.

And now, back to some meditation, possibly the next revolution in social interaction we’re all truly in need of.

Karuna, this Summer. Thank you.

IMG_8005

Lendo (e anotando violentamente!) o último livro de Krzysztof Nawratek – Total Urban Mobilisation: Ernst Jünger and the Post-Capitalist City – uma leitura enpolgante de meras 98 páginas. O lugar: o caloroso porto para almas em busca que é o centro de retiros Karuna, nos infindáveis montes de Monchique, onde o desejo premente por uma vida urbana pós-capitalista poderia parecer fora de contexto.

No processo de regresso a uma fusão com o Self, a minha convicção é de que qualquer método não deixa de ser bem-vindo; por outro lado, qualquer caminho deve estar aberto a fascinantes desvios – incluindo o esforço literalmente religioso de interiorizar tão densamente tecido horizonte sociocultural. Lá está: pós-secular.

Temas como a co-existência social, o agenciamento cidadão, criatividade urbana, urbanismo táctico ou prototipagem experimental – para citar apenas alguns – são delicada- mas também firmemente interconectados por meio de um rememorar dos passeios estereoscópicos de Ernst Jünger, num tributo a verdades que o capitalismo e os gurus neoliberais do Dark Enlightenment teimam em ignorar. Não que eu sofra com o monstruoso engano de vidas e natureza que por aí medra, já que a compaixão e a consciência [awareness] são em qualquer dos casos mais poderosos que a ignorância e a negação.

Seja como for, entre abordagens revigorantes de casos de estudo que emergem em todo o globo e posições filosóficas cortantemente provocatórias, articuladas com enorme precisão, o texto é um experimento discursivo sobre os fundamentos da vida em comum na Terra e ao mesmo tempo uma sequência agradável e quase dramatúrgica de paisagens onde o pensamento do discernimento pode engajar-se no Self, bem no seio da condição urbana. Nesta meta-narrativa, lugares como Karuna são certamente entradas – portais – para a cidade silenciosa onde todas as ideias vêm repousar e tornar-se no sedimento do Bem.

Este pequeno livro estabelece uma ponte com o mais pesado (em termos do número de páginas) e mais poético e literário Foams de Peter Sloterdijk. O que é assaz relevante, uma vez que estamos bem precisados de alternativas para exaustas ideologias e desalmadas práticas urbanas. A mobilização urbana total  é exactamente a noção certa por onde começar. Basta tirar-se algum tempo para que a busca nos leve ao belo novo horizonte da cidade pós-capitalista, pelas mãos de um dos teóricos mais pós-críticos dos dias de hoje.

E agora, de regresso à meditação, possivelmente a próxima revolução na interacção social de que todos realmente estamos precisados.

Karuna, este Verão. Obrigado.

IMG_8002

 

Quietly Speaking Colours

Time flies, witnessed by my weary eyes. These same eyes are nevertheless always ready to feel amazement, specially when simple things remind us of the Beauty of the Essence. In Ciasna Street in Torun, during last Skyway, a new work by Lithuanian artist Katryna Calkaite quietly explains how to transform a personal experience into shared awareness. It silently convokes the eyes to see through the lens of the heart, and this is what urban magic is all about. The obvious and the common sign a pact with the nice and the serene only to manifest the colours of Love. Quietly Speaking Colours is a groundbreaking work that tells my very weary eyes the meaning of the rainbow.

SKYWAY-19-Katryna-Calkaite-Quietly-Speaking-Colours-5-daylight

O tempo voa, e dele são testemunha os meus olhos cansados. Estes mesmos olhos estão no entanto sempre prontos para sentir espanto, especialmente quando coisas simples nos relembram a Beleza da Essência. Na rua mais estreita da cidade de Torun, durante o último Skyway, uma nova obra da artista lituana Katryna Calkaite explica-nos serenamente como transformar uma experiência pessoa em consciência [awareness] partilhável. Convoca-nos silenciosamente os olhos para vermos através da lente do coração, e é disto que é feita a magia urbana. O óbvio e o comum assinam um pacto com o bonito e o sereno, apenas para manifestar as cores do Amor. Quietly Speaking Colours é uma obra inovadora que conta aos meus olhos cansados o significado do arco-íris.

A Cidade das Aves

Foram quatro-longas noites-quatro de fantasia e sátira política sem aveia na língua. Aristófanes trasladado à cena no Parque D.Carlos I, em Caldas da Rainha. As Aves (414 c. C.) é a comédia mais fantástica do autor, uma obra cujo escapismo terá sido a resposta do génio teatral ao declínio da civilização ateniense. Nem vale a pena estar a sublinhar o potencial de actualidade no texto… aqui aportado via a peça de Bernard Chartreux:A Cidade dos Pássaros, ‘situada’ na democracia liberal burguesa dos dias de hoje.

Com tesão e tomates, palavras e palavrões bem medidos, zero de concessões a não ser ao compromisso de comunicar a mensagem milenar e sobretudo actualizar uma peca que é por si só um monumento e um mito da Cultura, o Teatro da Rainha criou condições para uma pequena-grande epifania cidadã.

Garras bem fincadas mas questões do momento (muros ímpios, manipulação populista, aceitação das hierarquias mais estúpidas, subjugação voluntária aos fascismos e que tais), e deleitando-se no cubismo conceptual das piruetas literárias do mais agridoce dos comediógrafos, encenação (e adaptação de Fernando Mora Ramos) e elenco entregaram-se cheios de ventura – gáudio ornitológico – a um modelo dinâmico da consciência crítica. Com o público convocado para a situação empática que o ambiente natural naturalmente propicia, não apenas a estrutura do pensamento grego como suas insignes ruínas foram habilmente desenterradas.

O bonito do mundo dos homens é isto, (saber) ridicularizar-se numa metaforologia paródica, alada, expandida. Como sempre aconteceu na fábula mais exigente. De resto, a multidimensionalidade do texto e as máscaras de Filipe Feijão levaram as centenas de espectadores, presas de sorrisos e gargalhadas (de boca cheia de gorgulho), a compreender melhor as asas que nos faltam enquanto espécie. A Rainha gosta deste Teatro. Palmas.

E lá está, é sempre muito prazenteiro este aparato do avesso, quando à saída (o cair do pano invisível) os pássaros tiram as máscaras e lhes ficamos a ver a real estatura do bicho homem. O corvo lá esteve a fazer o seu habitual papel. Ser mais um bico no bando efémero que foi este belo público, comunidade de mil rostos que, no regresso aos ninhos, viria a pintassilgar os caminhos de terra com chilreios de crianças e até amanhãs se Zeus quiser.

Aristófanes (n. 450 a. C) é o mais representativo autor da Comédia Grega. Prolífico autor de – e vejam-me estes títulos – Vespas(422), Paz(421) ou Sapos(405), apadrinhou um noite de arte especialmente pública. O regresso do burlesco ao coro quotidiano da cidade é coisa que aqui fez sentir todo o sentido. Foram quatro-longas noites-quatro de fantasia e sátira política sem aveia na língua.