Toma!

I confess I am tired of… ‘urban art’. But here I am looking (amazed) at this work by Nuno Viegas, who transforms this anonymous white façade into an image of the very city of Caldas da Rainha. An image of the city being it/herself and of the very possibility of art. Delicious ambiguity, highlighted by the sememe of the glove. The portal has been opened at Praça 5 de Outubro (known as ‘Praça dos Bares’) and is part of the concise aesthetic proposal of a Festival – Festival Artístico de Linguagens Urbanas (FALU) happening in Caldas da Rainha until October, in a partnership of the Municipality with the cultural association Riscas Vadias.

Bordalo II, Add Fuel, Akacorleone and Daniel Eime are other guest artists in this edition, which also will feature work following an Open Call. Let there be more. Ah! The name FALU “comes from the phonetic similarity between a figurative element that characterizes the city – the phallus – and the word “falo”, like in “falar” [to speak], which is related to the actions of communicating and expressing. Not bad – well said.

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Confesso que estou… cansado de arte urbana. Mas eis que Nuno Viegas rasga esta anónima fachada branca com uma imagem que torna a cidade ela própria uma imagem de si própria e do que pode a arte. Deliciosa ambiguidade, exponenciada pelo semema da luva. O portal encontra-se aberto à Praça 5 de Outubro (dita ‘dos Bares’) e integra a concisa proposta estética do Festival Artístico de Linguagens Urbanas (FALU para os amigos), que está a decorrer nas Caldas da Rainha até Outubro, numa parceria entre a Câmara Municipal e a Associação Riscas Vadias, responsável pela iniciativa.

Bordalo II, Add Fuel, Akacorleone e Daniel Eime são outros artistas convidados para esta edição, que integra ainda criações na sequência de uma Open Call. Venham mais. Ah! Consta que o nome FALU “surge da semelhança fonética entre o elemento figurativo característico da cidade: o falo, assim como da palavra falo, de falar, comunicar, expressar”. Nada mal visto (dito).

Forever 25

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«Há um momento em que as gaivotas desenham mensagens no céu da manhãIsto foi escrito antes do amigo Corona nos trocar as voltas ao quotidiano. Hoje, 25 de Abril 2020, e ao contrário do que costumeiramente fiz durante décadas, passeio pelas ruas quase vazias de Caldas e e deixo-me levar pelas músicas das janelas e as conversas nas varandas, a lembrarem-me que só existe uma coisa: o momento presente. As andorinhas em manobras aéreas sobre o pátio, o casal de gaivotas que nunca se tinha aproximado tanto, isso tudo foi ‘ontem, já só são memória.

IMG_1310Na minha manif. silenciosa de final de tarde, e depois de, de manhã, ter, como é tradição, ter posto o vinil aos berros em casa – para gáudio do meu puto (‘Agora’ do Zeca, seguido de ‘Heaven on their Minds’) – os meus passos levaram-me à ‘Praça do Peixe’. E aí uma voz arranca-me à introspecção da escrita melancólica deste post. É a Susana Valadas do Jardim (Waldorf) da Amoreira, que se cruza comigo também ela na sua manif. íntima. Vai mais ‘artilhada’ do que eu, com cartaz na bike e tudo; mas estamos juntos na imagem, pois do lado de cá do i-phone estou de patriótico pull-over verde e cachecol vermelho. Bom 25!

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Mas ora digam-me lá. Não é daqueles sorrisos todos horizonte, confiança e luz? São estes encontros – pequenas e subtis aparições do socius – que dão força aos intelectuais de retaguarda (genial expressão cortesia de Boaventura Sousa Santos, no JL) aquele boost de genuína humanidade que nenhuma app, nenhum hype, nenhum 5G seriam capazes de me oferecer. São sementes. Até para o ano. Sempre.

 

 

Ruthless Ruth

Yesterday, on the radio, I heard a voice of a terrible candor and force, of a sweetness and conviction made of a long and intense experience of life. It cradled me on the way from home to School, already late. But I risked to loose some more minutes and, of course, I finally acknowledged it was the voice of Isabel, a being whose luminosity literally puts anyone in his/her place. On top of that, speaking of her experience of… Kathmandu! Of an initiatic trip in 70’s, told with the tenderness and the respect that each one’s youth deserves. This is the right moment to share a brief encounter with the First Lady Of Portuguese Cinema in the National Theatre D. Maria II, as beautiful as adorable, in the interval of Life, on the stage of affinities. In white, hand in hand. And the Mário goes to… Isabel Ruth!

Ruthless Ruth (moments)

Ontem, na rádio, uma voz de uma candura e de uma força terríveis, de uma doçura e de uma convicção feitas de uma longa e intensa experiência da vida ia-me embalando no percurso casa-Escola, já atrasado. Mas arrisquei perder mais uns minutos e claro, finalmente percebi que era a voz da Isabel, um ser cuja luminosidade coloca qualquer um literalmente no sítio. Ainda por cima a falar de… Kathmandu! De uma viagem iniciática feita nos idos de 70, que relatou com a ternura e o respeito que a juventude de cada um merece.  É pois um momento de partilhar este breve encontro com a Primeira Dama do Cinema Português no Teatro D. Maria II, tão bela quanto amável, no intervalo da vida, no palco das afinidades. De branco e de mão dada. E o Mário vai para… Isabel Ruth!

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The picture is awful and, arguably, the models no better. But what a moment! The meeting happened last December (2019), in Universidade Católica in Lisbon, during the “Building Narrative: Cultural Interfaces and Spatial Meaning” conference. On my right, no less than Malcolm Miles, one of my intellectual heroes and with whom I happen to co-operate since 2000 (he was THERE, during the very initial tottering moments leading to what would end up becoming a sort of iconic urban event: Lisbon Capital of Nothing – Marvila 2001). His latest book Cities and Literature shows how literature frames real and imagined constructs and experiences of cities. The text offers access to literature from an urban perspective for the social sciences, and access to urbanism from a literary viewpoint. Lovely crossover. On my left, Krzysztof Nawratek, a sort of radical partisan of a nu-urbanism. He defines himself as a ‘transhumanistic post-christian democrat’. The author of the surprising Total Urban Mobilisation: Ernst Jünger and the Post-Capitalist City, Nawratek’s main research interest lays in urban theory in the context of post-secular philosophy, the crisis of the contemporary neoliberal city model and urban re- industrialisation. Uf! In other words, and now seriously:  urban theory can be… loads of fun.

The gorgeous poster (below) is by designer Nayara Siler, on photography (taken in Varanasi, India) by Agata Wiórko.

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A fotografia é péssima e os modelos, se calhar, não muito melhores. Mas que intenso momento! O encontro ocorreu Dezembro passado (2019) na Universidade Católica em Lisbon, durante a conferência “Building Narrative: Cultural Interfaces and Spatial Meaning”. À minha direita, nada menos que Malcolm Miles, um dos meus heróis intelectuais e com quem tive a oportunidade de cooperar desde 2000 (ele esteve LÁ, durante os titubeantes momentos iniciais do que viria a tornar-se um evento urbano porventura icônico: Lisboa Capital do Nada – Marvila 2001). O seu livro mais recente, Cities and Literature, mostra como a literatura enquadra construtos e experiências, reais e imaginários, das cidades. O texto oferece acesso à literatura numa perspectiva urbana para as ciências sociais, e acesso ao urbanismo de um ponto revista literário. Adorável cruzamento. À minha esquerda, Krzysztof Nawratek, espécie de partisan radical de um novo-urbanismo. Ele define-se a si próprio como ‘democrata transumanista pós-cristão’. Autor do surpreendente Total Urban Mobilisation: Ernst Jünger and the Post-Capitalist City, o seu principal foco de investigação assenta na teoria urban no contexto da filosofia pós-secular, da crise do modelo de cidade contemporânea neoliberal e da re-industrialização urbana. Ufa! Por outras palavras, e agora seriamente: a teoria urbana pode… dar imenso gozo.

O belo poster (em cima) é da autoria de Nayara Siler, sobre fotografia (tirada em Varanasi, na Índia) de Agata Wiórko.