Santos, Anabela

Magic moment. To meet Anabela Santos, who now lives in Brighton, in the street where I live. Just passing through, the day she decided to visit the city where she has studied. For more on her extremely sensitive work, in two moments we crossed paths, check out the projects TERROIR/GRAFFITI and ESQUECER SARAMAGO. And look out what I read in her Facebook page: Those who receive your art will recognise their own feelings through you. Your creativity creates  heart-to-heart connection of truth and authenticity. This opens up the hearts of everyone who resonates with your art, leaving a wake of healing. Talk soon, Anabela.

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Momento mágico. Encontrar a Anabela Santos, que agora vive em Brighton, na rua onde vivo! A passar casualmente, no único destes dias em que deu um pulo até à cidade onde estudou. Para mais sobre o trabalho extremamente sensível desta, em dois momentos em que nos cruzámos, espreitar precisamente os projectos TERROIR/GRAFFITI e ESQUECER SARAMAGO. E vejam lá o que se lê na sua página de Facebook: Those who receive your art will recognise their own feelings through you. Your creativity creates  heart-to-heart connection of truth and authenticity. This opens up the hearts of everyone who resonates with your art, leaving a wake of healing. Arrisco agora em Português: Aqueles que recebem a tua arte reconhecerão através dela os seus próprios sentimentos. A tua criatividade cria conexão de verdade e autenticidade, de coração para coração. Isto abre os corações de quem quer que entre em ressonância com a tua arte, gerando um despertar da cura. Até já Anabela.

 

 

 

 

Total Urban Mobilisation! Now!

Reading (and wildly annotating!) Krzysztof Nawratek’s latest book – Total Urban Mobilisation: Ernst Jünger and the Post-Capitalist City –, an exhilarating read in mere 98 pages. The place: the warmhearted harbour for searching minds which is Karuna, the retreat center in the never-ending hills of Monchique, where the pressing desire for a post-capitalist urban life would apparently seem out of place.

In the homecoming process of merging with the self, my conviction is nevertheless that any method is welcome, and any path shall be open to fascinating detours – including the literally religious effort of interiorizing such a densely woven (there you go, post-secular) socio-cultural horizon, written with the boldness of a spiritual anarchist.

Themes such as social co-existence, citizen agency, urban creativity, tactical urbanism or experimental prototyping – to name just a few – are firmly, but also delicately interconnected by means of Ernst Jünger’s stereoscopic wanderings, in a tribute to truths capitalism and the neoliberal Dark Enlightenment gurus insist to ignore. Not that I suffer with the current monstrous misleading of lives and nature, for compassion and awareness is in any case more powerful than ignorance and negation.

But anyway, between a fresh take on case studies emerging all around the globe and sharply provocative philosophical positions articulated with utmost concision, the text is a discursive experiment on the foundations of common life on Earth and at the same time an enjoyable and almost dramaturgic sequence of landscapes for insightful thought to engage with the Self right within the urban condition. In such meta-narrative, places like Karuna are certainly gateways – portals – to the silent city where all ideas come to rest and become the sediment for Good.

This little book establishes a bridge with the heavier (considering the number of pages) and more poetic and literary Foams by Peter Sloterdijk. Which is relevant, since we’re all in need of alternatives for exhausted ideologies and soulless urban practices. Total urban mobilisation is just the right notion where to start. Just take some time for the search to take you to the brave new horizon of the post-capitalist city, by the hand of one of the most post-critical theorists of today.

And now, back to some meditation, possibly the next revolution in social interaction we’re all truly in need of.

Karuna, this Summer. Thank you.

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Lendo (e anotando violentamente!) o último livro de Krzysztof Nawratek – Total Urban Mobilisation: Ernst Jünger and the Post-Capitalist City – uma leitura enpolgante de meras 98 páginas. O lugar: o caloroso porto para almas em busca que é o centro de retiros Karuna, nos infindáveis montes de Monchique, onde o desejo premente por uma vida urbana pós-capitalista poderia parecer fora de contexto.

No processo de regresso a uma fusão com o Self, a minha convicção é de que qualquer método não deixa de ser bem-vindo; por outro lado, qualquer caminho deve estar aberto a fascinantes desvios – incluindo o esforço literalmente religioso de interiorizar tão densamente tecido horizonte sociocultural. Lá está: pós-secular.

Temas como a co-existência social, o agenciamento cidadão, criatividade urbana, urbanismo táctico ou prototipagem experimental – para citar apenas alguns – são delicada- mas também firmemente interconectados por meio de um rememorar dos passeios estereoscópicos de Ernst Jünger, num tributo a verdades que o capitalismo e os gurus neoliberais do Dark Enlightenment teimam em ignorar. Não que eu sofra com o monstruoso engano de vidas e natureza que por aí medra, já que a compaixão e a consciência [awareness] são em qualquer dos casos mais poderosos que a ignorância e a negação.

Seja como for, entre abordagens revigorantes de casos de estudo que emergem em todo o globo e posições filosóficas cortantemente provocatórias, articuladas com enorme precisão, o texto é um experimento discursivo sobre os fundamentos da vida em comum na Terra e ao mesmo tempo uma sequência agradável e quase dramatúrgica de paisagens onde o pensamento do discernimento pode engajar-se no Self, bem no seio da condição urbana. Nesta meta-narrativa, lugares como Karuna são certamente entradas – portais – para a cidade silenciosa onde todas as ideias vêm repousar e tornar-se no sedimento do Bem.

Este pequeno livro estabelece uma ponte com o mais pesado (em termos do número de páginas) e mais poético e literário Foams de Peter Sloterdijk. O que é assaz relevante, uma vez que estamos bem precisados de alternativas para exaustas ideologias e desalmadas práticas urbanas. A mobilização urbana total  é exactamente a noção certa por onde começar. Basta tirar-se algum tempo para que a busca nos leve ao belo novo horizonte da cidade pós-capitalista, pelas mãos de um dos teóricos mais pós-críticos dos dias de hoje.

E agora, de regresso à meditação, possivelmente a próxima revolução na interacção social de que todos realmente estamos precisados.

Karuna, este Verão. Obrigado.

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Quietly Speaking Colours

Time flies, witnessed by my weary eyes. These same eyes are nevertheless always ready to feel amazement, specially when simple things remind us of the Beauty of the Essence. In Ciasna Street in Torun, during last Skyway, a new work by Lithuanian artist Katryna Calkaite quietly explains how to transform a personal experience into shared awareness. It silently convokes the eyes to see through the lens of the heart, and this is what urban magic is all about. The obvious and the common sign a pact with the nice and the serene only to manifest the colours of Love. Quietly Speaking Colours is a groundbreaking work that tells my very weary eyes the meaning of the rainbow.

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O tempo voa, e dele são testemunha os meus olhos cansados. Estes mesmos olhos estão no entanto sempre prontos para sentir espanto, especialmente quando coisas simples nos relembram a Beleza da Essência. Na rua mais estreita da cidade de Torun, durante o último Skyway, uma nova obra da artista lituana Katryna Calkaite explica-nos serenamente como transformar uma experiência pessoa em consciência [awareness] partilhável. Convoca-nos silenciosamente os olhos para vermos através da lente do coração, e é disto que é feita a magia urbana. O óbvio e o comum assinam um pacto com o bonito e o sereno, apenas para manifestar as cores do Amor. Quietly Speaking Colours é uma obra inovadora que conta aos meus olhos cansados o significado do arco-íris.

A Cidade das Aves

Foram quatro-longas noites-quatro de fantasia e sátira política sem aveia na língua. Aristófanes trasladado à cena no Parque D.Carlos I, em Caldas da Rainha. As Aves (414 c. C.) é a comédia mais fantástica do autor, uma obra cujo escapismo terá sido a resposta do génio teatral ao declínio da civilização ateniense. Nem vale a pena estar a sublinhar o potencial de actualidade no texto… aqui aportado via a peça de Bernard Chartreux:A Cidade dos Pássaros, ‘situada’ na democracia liberal burguesa dos dias de hoje.

Com tesão e tomates, palavras e palavrões bem medidos, zero de concessões a não ser ao compromisso de comunicar a mensagem milenar e sobretudo actualizar uma peca que é por si só um monumento e um mito da Cultura, o Teatro da Rainha criou condições para uma pequena-grande epifania cidadã.

Garras bem fincadas mas questões do momento (muros ímpios, manipulação populista, aceitação das hierarquias mais estúpidas, subjugação voluntária aos fascismos e que tais), e deleitando-se no cubismo conceptual das piruetas literárias do mais agridoce dos comediógrafos, encenação (e adaptação de Fernando Mora Ramos) e elenco entregaram-se cheios de ventura – gáudio ornitológico – a um modelo dinâmico da consciência crítica. Com o público convocado para a situação empática que o ambiente natural naturalmente propicia, não apenas a estrutura do pensamento grego como suas insignes ruínas foram habilmente desenterradas.

O bonito do mundo dos homens é isto, (saber) ridicularizar-se numa metaforologia paródica, alada, expandida. Como sempre aconteceu na fábula mais exigente. De resto, a multidimensionalidade do texto e as máscaras de Filipe Feijão levaram as centenas de espectadores, presas de sorrisos e gargalhadas (de boca cheia de gorgulho), a compreender melhor as asas que nos faltam enquanto espécie. A Rainha gosta deste Teatro. Palmas.

E lá está, é sempre muito prazenteiro este aparato do avesso, quando à saída (o cair do pano invisível) os pássaros tiram as máscaras e lhes ficamos a ver a real estatura do bicho homem. O corvo lá esteve a fazer o seu habitual papel. Ser mais um bico no bando efémero que foi este belo público, comunidade de mil rostos que, no regresso aos ninhos, viria a pintassilgar os caminhos de terra com chilreios de crianças e até amanhãs se Zeus quiser.

Aristófanes (n. 450 a. C) é o mais representativo autor da Comédia Grega. Prolífico autor de – e vejam-me estes títulos – Vespas(422), Paz(421) ou Sapos(405), apadrinhou um noite de arte especialmente pública. O regresso do burlesco ao coro quotidiano da cidade é coisa que aqui fez sentir todo o sentido. Foram quatro-longas noites-quatro de fantasia e sátira política sem aveia na língua.

O blues do bispo Bishop

Igreja do Espírito Santo, Caldas da Rainha, Domingo 30 de Junho, 2019, 19:00. Perante música (de câmara contemporânea e improvisada) desta, o melhor é deixar as imagens falar (cortesia Susana Valadas). Segundos antes de o nómada yankee atacar o penúltimo tema, sussurro à minha cara-metade. – Isto tem qualquer coisa de… Banaras… Eis senão quando o Ricardo Bispo, nome de seu avatar em território tuga, levanta os olhos da guitarra e anuncia um tema (o segundo ou terceiro em open tuning) que, esse sim, e de forma evidente, ressoou o conhecimento oriental, como se os blues tivessem mergulhado no Ganga e saíssem a pingar de desejo de iluminação. A coisa tanto foi assim que, na parede, o movimento espectral de uma mancha de luz, matizada por reflexos arbóreos, não quis deixar de fazer parte. Foi a primeira vez que assisti a um evento do Grémio Caldense, e posso apenas dizer que fomos, aquelas poucas dezenas de privilegiados, os felizes contemplados com um inusitado – de tão humilde – concerto de um all-American sadhu. Passe o exagero. Retenha-se, isso sim, o silêncio compassivo que se seguiu ao estertor final do feedback da guitarra ecléctica. Thank youSir Richard Bishop.

Nota final. Sobre o cartaz. A Nayara (Siler) está com o pé quente. Cada cartaz da programação do Faroeste é um festim de singeleza.

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Terna Guerreira

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She used to say she wanted to believe in life after death because she wanted to continue to write about the life of people after her own death. (And then she’d laugh like a child). Here I am in the image above, a day before the news, paging through the extraordinary forward of Ternos Guerreiros [Tender Warriors] inside the cathedral of light created by Cesar Barrio in the Lavadouro das Francesinhas do Bairro da Madragoa. And what a read, within four water walls.

Agustina, discretely, exits the stage. The Theatre of Apparitions her last address, which is always the first in the circular universe of the initiated. The Tender Warrior keels over. It is time to bury Agustina. That is, to read her, and wake up to the deflagration of the sensitive. Mystery and Literature in a cat.

Today, in the newspaper [Público], Eduardo Lourenço geometries the ouvre of the sibila in a few paragraphs, helping to hand over, to the mainstream public, what Mário santos accounts as the ‘mighty fluidity’ of an ‘anarchist writing’, ‘which seems to sprout from an inexhaustible and paradoxical mediúnico source’. I just wonder: Seems?

In memoriam Agustina Bessa-Luís [2019-1922]

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Ela dizia que queria acreditar na vida após a morte, porque queria continuar a escrever sobre a vida das pessoas depois de morrer. (E ria-se como uma criança). Eis-me na imagem, um dia antes da notícia, folheando o extraordinário prefácio de Ternos Guerreiros na catedral de luz criada por Cesar Barrio no Lavadouro das Francesinhas do Bairro da Madragoa. E que leitura, entre quatro paredes de água.

Agustina, muito discretamente, sai de cena. O Teatro das Aparições sua última morada, que é sempre a primeira, no universo circular dos iniciados. A Terna Guerreira soçobra. É preciso enterrar Agustina. Lê-la portanto, e acordar para a deflagração do sensível. Mistério e Literatura num gato.

Hoje no Público, Eduardo Lourenço geometriza a obra da sibila num par de parágrafos, ajudando ao resgate, para junto do grande público do que Mário Santos descreve como ‘caudalosa fluidez’ de uma ‘escrita anarquizante’, ‘que parece brotar de uma inesgotável e paradoxal fonte mediúnica’. Apenas pergunto: Parece?!

In memoriam Agustina Bessa-Luís [2019-1922]

 

 

Eduarda Lemos, nome de guerra: Brasil

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Thank you artists Bárbara Wagner & Benjamin de Burca, curator Gabriel Pérez-Barreiro and Fundação Bienal de S. Paulo for the Brazilian Pavilion in the 58th Arte Biennale. It brought us Eduarda Lemos and the adorable teams of dancers from Recife. It was one of the very first pavilions I checked out in Venice, and it would be under its spell that I would do the rest of the tour.
Needless to say, nothing else would mesmerise me in the same way (with the exception, I must admit, of the live opera at the Lithuanian show). In any case, Swinguerra is highly relevant because it is a quite spectacular outcome of an ongoing commitment of the filmmakers with a community of youngsters passionately competing with each other among dance groups dedicated to the emergent styles of the periphery: swingueira, brega and batidão do maloca. The fact that these dancers are most nonbinary is for me somehow secondary, but I am sure it is nevertheless a crucial point when it comes to dig into the Brazilian reality.
The experience of the space in the Giardini is of a hybrid form of musical documentary, one well aware of its potential as a social event. It might be generating a political momentum. Notably, it is the result of a participatory and horizontal practice with the characters portrayed having collaborated in the film’s script. And what’s more important, as the curator puts it, it’s about offering society a radically inclusive contribution for engagement and debate, in a country currently acknowledged as a violent territory of “disputes on visibility, legal rights, and self-representation”.
By all means, and for this post’s sake, Eduarda will be the face of this year’s Biennale, but I risk to say, possibly also the face of Brazil during these utmost troubled times. She steals your heart with her moves and her gaze, as if all of her (gorgeous) mates  were also speaking through her. Humans as avatars of whole communities, that’s what this kind of sweet creature is. Disarming. Just enough to make you adhere to the criticality of the fight for justice, freedom and evolution in a world menaced by all sorts of fascisms, coming under all scales and disguises. Força, galera!
Eduarda Lemos, nome de guerra: Brasil
Obrigado artists Bárbara Wagner & Benjamin de Burca, curador GabrielPérez-Barreiro e Fundação Bienal de S. Paulo pelo Pavilhão do Brasil na 58.ª Arte Biennale. Trouxe-nos Eduarda Lemos e a adorável equipa de bailarinos do Recife. Foi dos primeiros pavilhões que espreitei em Veneza. E foi sob seu feitiço que visitaria o resto do percurso.
É evidente que nada mais me impressionaria da mesma maneira (com a excepção, tenho de admitir, da ópera ao vivo na representação lituana). Em qualquer dos casos, Swinguerra é muito relevante porquanto espectacular expressão do comprometimento dos realizadores com uma comunidades de jovens que compete apaixonadamente entre si, em grupos de dança que se dedicam a estilos emergentes da periferia: swingueira, brega e batidão do maloca. O facto de a maioria dos dançarinos ser não-binário é para mim de alguma maneira secundário, mas estou certo de que não deixa de ser  um ponto crucial quando o que está em causa é um mergulho na realidade brasileira.
 
A experiência do espaço nos Giardini é a de uma forma híbrida de documentário musical, consciente do seu potencial como acontecimento social. Talvez contribua para gerar momentum político. Até porque é o resultado de uma prática participaria e horizontal com as personagens representadas colaborando no guião. Ainda mais importante, e tal como o curador tornou claro, trata-se de oferecer à sociedade uma contribuição radicalmente inclusiva para o engajamento e o debate, num país actualmente conhecido por se ter tornado num território violento de “disputas sobre visibilidade, direitos legais e auto-representação”.
 
Para todos os efeitos, e para os deste post – cujo título evoca o Nome de Guerra de Almada Negreiros, Eduarda será o rosto da Bienal deste ano, mas arrisco dizer, também do Brasil nestes tempos assaz perturbantes. Ela rouba-nos o coração com os seus movimentos e o seu olhar, como se todos os/as seus (lindos/as) companheiros/as estivessem também eles/as a falar por meio dela. Humanos como avatares de comunidades inteiras, é este o tipo de doce criatura na imagem. Desarmante. Na exacta medida para nos fazer aderir criticamente à luta pela justiça, liberdade e evolução num mundo ameaçado por todo o tipo de fascismos, que nos chegam em todas as escalas e disfarces. Força, galera!

A trace of Light in Venice

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Miracles do happen. The miracle of light is one Czech artist Pavel Korbička is very much used to perform, recurring to the most delicate, precise and magical takes on space. Simplicity is key in his art, and what a surprise to find his latest work illuminating a detail of the Basilica dei Santi Cosma e Damiano! Some sort a membrane of radiation reveals the presence of some kind of portal.

 

Part of the exhibition Pavilion 02, curated by Tomasz Wendland and Harro Schmidt, this new site-specific installation is a dialogue between old Venetian architecture and light. The longest producible neon (2.5m) is tilted from a circular window to the sky (45°) in the central axis of the tower. The light from the neon adheres to the window frame, to the wall of the church and the monastery according to its spatial misalignment.

 

For Tomasz Wendland, Art is and will be all that besides words. And this assertive piece truly manages to refer to that idea, while contributing for a both mysterious  and cognitive urban moment, what certainly meets the desire of the organizers of “Take care of Your garden”, the initiative of the Giudecca Art District.

 

In sum, for all who might want to drop by at the Biennale until next May 30, this special work is well worth a detour (see map below), for it’s not an everyday thing, the way this artist trespasses the weight of architecture, only to re-materialize the essence of the built while rendering all immaterial a powerful presence.

 

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Um traço de luz em Veneza

Os milagres acontecem. O milagre da luz é um que artista checo Pavel Korbička está perfeitamente habituado a fazer, recorrendo às mais delicadas, precisas e mágicas apropriações do espaço. Simplicidade é um termo-chave da sua arte e que surpresa, depararmos-nos com esta nova obra iluminando um detalhe da Basíilica dos Santos Cosme e Damião! Uma espécie de membrana de radiação revela a presença de uma espécie de portal.

 

Integrada na exposição Pavilion 02, com curadoria de Tomasz Wendland e Harro Schmidt, esta instalação sítio-específica é um diálogo entre a arquitectura antiga de Veneza e a luz. Uma luminária inclinada a 45º, com 2.5m (cumprimento máximo actualmente produzido), atravessa a janela no eixo central da torre em direcção ao céu. A luz do néon adere à moldura da janela, à parede da igreja e do mosteiro, em função do desalinhamento espacial gerado.

 

Para Tomasz Wendland, A Arte é e será tudo o que está para lá das palavras. Esta assertiva peça consegue com efeito remeter para esta ideia, contribuindo ao mesmo tempo para um momento urbano simultaneamente misterioso e cognitivo, o que certamente vai ao encontro do desejo dos organizadores do programa “Take care of Your garden”, iniciativa do Giudecca Art District.

 

Em suma, para quem passar pela Bienal ou Veneza até este dia 30 de Maio, esta obra muito especial vale bem o desvio (ver mapa em cima). Pois que não é coisa do dia-a-dia, a forma como o artista trespassa o peso da arquitectura, apenas para rematerializar a essência do edificado, enquanto torna todo o imaterial numa poderosa presença.

Bunga. Na barriga do tempo

Extraordinário testemunho, o de Carlos Bunga hoje (16.5.2019) na ESAD.CR, sobre o (seu) trabalho e a (nossa) Vida. Conferência Arquitectura da Vida, a convite de Samuel Rama. A arquitectura da arte explicada na primeira pessoa. Que bonito e profundo, e um orgulho para esta Escola e esta cidade ter ajudado a ‘produzir’ um humanista deste calibre.
The man behind the cardboard. The man. Que «utiliza o cartão mas não fala dele». Que através das sete vidas do papel e da fita-cola, e depois do desenho, do manipular pequenos e grandes objectos, e finalmente do comunicar da memória dos gestos (res)salva a temporalidade da performance – o conceito – para assim edificar a cidade numa dimensão ainda para lá das ideias. «São peças que não terminam com a exposição, antes continuam até… ao infinito». São pois coisas, que nenhum discurso seria capaz de conter, seja o da arquitectura, do urbanismo ou da antropologia. Ou da história e suas ruínas.
Choreographing spectatorship por esse mundo fora. Convocando-nos. A nomad of a mind like very very few. Para quem desconstruir e desfazer não é o oposto de construir e fazer. Sabedoria budista, oriental, ecos de Gutai e Gordon Matta-Clark. A síntese de tudo na obra de um criador para quem a casa começa sempre pela memória (da barriga da mãe) e a memória se transforma sempre numa casa (que levamos connosco e com os nossos genes – assim como os recebemos). Num fluxo.
De onde vem esta vitalidade, este energia? O encontro com a sua própria linguagem permanece um processo e sobretudo um desafio em aberto, literalmente hands on. Mas depois também usa as palavras e com uma fluência, uma generosidade, uma clareza e um rigor absolutamente desarmantes. A ternura da verdade. This might well be one of the last artists using metaphor to empty out its intrinsic distancing function to establish a fully conversational plane of imanence. Corpo e mente, ideia e conceito, acção e superfície num mesmo gesto. Exemplar. Obrigado.
No final da conferência, a uma pergunta de uma aluna, sobre se a essência do trabalho estava desde o início da vida ou se foi sendo descoberta durante o percurso, Bunga respondeu, assumindo a paternidade do vazio: «o que fazemos é o resultado do que somos». O que um grande artista faz é pelos vistos continuar a ser curioso (desde a barriga da mãe, isto é, da própria noite dos tempos) o suficiente para continuar a descobrir intuitivamente, em consciência, como dar forma à sua missão. Corpo ao futuro. Sent from my iPhone.
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PS Na mesma tarde, no MAAT, Bunga viria a ‘desfazer’ a seu construção durante uma performance. Fica a espreitadela para detrás do (des)edificado.

Sara & André & 100

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Very opportune book [and project], for these days there might be more curators than artists. Reminds me of the ANAMNESE initiative some years ago. This is a precious sum-up, cleverly taking advantage of the egos of the intervenients in order to unravel a multivocal narrative on the motivations behind curatorship. The ‘MacGuffin’ effect – asking us to present an artwork by ourselves… – led to something more democratic and substancial: the publication of a hundred interviews, both short and enlightening. And there’s of course the appropriation of the image of the iconic book by Obrist – through the graphic design. Furthermore, the edition pays a tribute to three heroes in the field:  Ernesto (de Sousa), (Paulo) Reis & (Paulo) Cunha e Silva. Ah! And there’s a brilliant text by Carlos Vidal.
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PS When I asked them for a dedication, the artists shot back with the same challenge they did to the other authors: ‘Dictate it to us, and we’ll write it’. So it went: To our dear find and con-artist / grateful for his impenetrable ontribution/ 1 Hug / Sara & André / 8.3.19’ Relational art it its most intimate splendour. For the full interview, take a peak here. [Ups, it’s in Portuguese…“]
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Livro [e projecto] muito oportuno, por estes dias em que artistas há poucos e curadores há muitos. Como a iniciativa ANAMNESE há uns anos, eis uma deliciosa peça de consulta, que joga muito bem com os egos dos intervenientes para desvelar uma narrativa múltivoca sobre as motivações da curadoria. Brilhante como o efeito ‘MacGuffin’ – o pedir-nos uma obra de arte da nossa autoria para ser mostrada – levou a algo de mais democrático e substancial: a publicação de cem tão curtas quanto iluminadoras entrevistas, num livro que é uma irónica apropriação da imagem do icónico livro do Obrist – desde logo ao nível do design gráfico. Trata-se finalmente, também, de uma delicadíssima homenagem a três heróis do comissariado: Ernesto (de Sousa), (Paulo) Reis & (Paulo) Cunha e Silva. Ah! E há um brilhante texto do Carlos Vidal.
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PS Quando pedi à Sara e ao André uma dedicatória, fui confrontado com o mesmo desafio que estes indómitos oportunistas lançaram aos/às colegas: ‘Dita-a, que a gente a escreve’. E assim ficou: Ao nosso querido amigo e con-artist / gratos pela sua insondável contribuição / 1 Abraço / Sara & André / 8.3.19’ A arte relacional no seu mais íntimo esplendor. Para a entrevista completa, espreitar aqui.